Seja bem vindo! Salvador, 30 de Agosto de 2016
   
Entrevista
Publicada em 29 de Outubro de 2010 ás 10:06:45 Share

Entrevista com João Cavalcanti

Ele seria milionário sob qualquer critério, incluindo o impulso por tudo o que o dinheiro pode comprar: tem diversas casas de luxo (como a da foto acima, projetada pelo arquiteto Roberto Migotto e o paisagista Gilberto Elkis), cerca de 50 carros top – incluindo um Cadillac que foi de Elvis Presley – e dois jatos. Ou bilionário, pelos parâmetros da revista Forbes: seu patrimônio corporativo há muito ultrapassou 1 bilhão de dólares. O New York Times, numa matéria recente, chama- o de “Brazilian mining magnate”. Mas João Carlos Cavalcanti, ou JC, como é mais conhecido, não gosta do termo magnata, que acha pretensioso e perigoso. Prefere ser considerado simplesmente como um sujeito que, desde menino pobre, sempre quis ser alguém na vida e trabalhou muito para isso – combinando intuição, sorte e misticismo com profundo conhecimento geológico, para fazer seu primeiro milhão de dólares, e, há cinco anos, fazer no sertão baiano seu primeiro bilhão, na forma de uma das maiores reservas de minério de ferro do Brasil – que só ele foi capaz de descobrir. JC não é um empreendedor comum, muito longe dos clichês do tycoon urbano. Só veste preto, usa óculos escuros o tempo todo, não fuma, não bebe, não circula, tem obsessão pelo número 4 e, desde adolescente, acorda às 3 da manhã para meditar e se harmonizar com os deuses da natureza que lhe deu minérios e fortuna. E, diferente de quase todos os superexecutivos, tem paixão mística pelos animais – já deixou de fechar um negócio com um empresário que, na conversa, esmagou uma formiga com a mão fechada. Com a mulher, Renilce, ele comanda um admirável projeto que resgata cães e gatos abandonados e maltratados. Está longe, portanto, de ser um capitalista selvagem – ao contrário, seus empregados o consideram um patrão excepcional. Isto é JC:

Você não deve ter nascido em berço de ouro...

Sou de família de classe média baixa. Meu pai, Carlos Lima Cavalcanti, que nasceu em Pernambuco, veio para a Bahia participar da construção da antiga Ferrovia Leste Brasileira, nos anos 40, e conheceu minha mãe na cidade de Caculé, sertão da Bahia, fronteira com Minas.

Desde que se deu por gente, você já queria ser alguém na vida?

Já. Eu brincava no quintal da minha avó com meus primos, debaixo de mangueiras e goiabeiras, e enquanto os meninos diziam que queriam ser bombeiro ou motorista de ônibus, eu dizia que queria ser milionário. Eu gostava de tudo o que era belo e bonito. À noite, frequentava o Cine Teatro Engenheiro Dória, um cinema maravilhoso onde adorava assistir àqueles filmes com o Rock Hudson e a Doris Day para apreciar as mansões de Beverly Hills, os Cadillac e os Bel Air.

Quando é que você começou a pensar em fazer negócios?

Tive a oportunidade de ser sobrinho de um empreendedor chamado Miguel Antonio Fernandes, que foi líder político e nos anos 50 chegou a ter a maior construtora do País, a Bahia Construtora S/A – maior que a Odebrecht e a Camargo Correia. Quando pensava em ser milionário, eu dizia que queria ser igual a Miguel Fernandes. Ainda menino, ele me perguntou o que eu queria ser – além de milionário, eu queria ser geólogo. Minha inspiração, para essa área, vinha da presença de inúmeros geólogos americanos e alemães que então trabalhavam na região de Urandi e Brumado, para as mineradoras Magnesita S/A e Icomi. E Miguel me proporcionaria a possibilidade de sair de Caculé para estudar em Salvador. Pagou todos os meus estudos, desde o ginásio, nos melhores colégios, até a faculdade.

Mas os negócios, como começaram?

Já no primeiro ano da Faculdade de Geologia, fui selecionado para ser trainee no Grupo Pignatari, do inesquecível Baby Pignatari, o último grande playboy brasileiro, que era dono de minas de cobre emCamaquã, no Rio Grande do Sul, e em Caraíba, no norte da Bahia. Quando ele chegava, num Electra particular, eu ficava admirado. O Baby e o Tião Maia, aquele do gado, eram os únicos empresários que tinham avião na época. Aprendi muito com Baby e Miguel.
Deste recolhi lições de solidariedade e filantropia. Com todo aquele poder, era capaz de parar o carro na beira da estrada para recolher um cavalo em risco de ser atropelado. E as casas dele eram um luxo, com os Bel Air na garagem. Com Baby, aprendi a arte de bem viver. Falando em ícones, sempre admirei empreendedores de peso, como Antonio Ermírio e Norberto Odebrecht, que aliás tive o prazer de encontrar recentemente para conversrmos sobre negócios e a vida. Desde que comecei minha jornada, sempre fui uma pessoa focada no invisível. Eu acredito mais no que não vejo do que no que vejo. Quando eu acordo às 3 da manhã – e desde garoto eu fazia isso, conversando de madrugada com as plantas – eu vejo muito o invisível.

Essa posição de trainee foi seu primeiro dinheirinho?

O primeiro. Eu recebia dois do maior salário mínimo do País, que era o de São Paulo, para 20 horas de semana no escritório em Salvador e, nas férias, nas minas de Camaquã e Caraíba. Aprendi a trabalhar em mineração desde garoto.

A atividade de prospectar minérios é mais ciência ou mais intuição?

Mais intuição – ou instinto. Segundo os estudiosos, eu estou entre os quatro geólogos com maior índice de descoberta no mundo. Minha intuição é achar minério onde grandes pesquisadores passaram batido, inclusive os da Vale. Isso eu não explico. Eu chego ao local de prospecção, me afasto da equipe toda – e meus geólogos respeitam isso – vou para debaixo de uma árvore, fico em silêncio total e em seguida peço autorização às entidades do local. Cachoeiras, rios e matas têm protetores. Peço a eles, com toda reverência, que me deem licença e iluminem meus caminhos, mostrando onde estão os depósitos minerais. Meu compromisso é, depois da descoberta, gerar trabalho, emprego e prosperidade para o maior número possível de pessoas daquela região. Isso acontece regularmente.

Dê uma idéia do potencial das minas de Caetité – as maiores que você já encontrou.

Ganhei meu primeiro milhão de dólares com 27 para 28 anos, vendendo uma jazida para um grupo de mineração. Em 1986, tomei a decisão de deixar de ser empregado quando ouvi de um economista amigo meu, hoje falecido: “Cara, se eu tivesse o conhecimento que você tem, eu seria um homem bilionário. Por que você fica aí descobrindo reservas para essas empresas todas e não vai procurar pra você mesmo”? Foi aí que parti para o voo-solo. Peguei uma perua 4X4, um motorista, convidei alguns colegas para me acompanhar, a maioria não quis. Não tinha hora: era sábado, domingo, feriado, Carnaval, eu de mapa geológico de 1937 na mão, estudando in loco os ambientes geológicos mais favoráveis. Logo fiz as primeiras descobertas mas o grande salto, efetivamente, foi Caetité, um depósito enigmático que abalou a mineração no País Estava na cara da Vale do Rio do Doce e da estatal do governo da Bahia, que mantinha 60 geólogos na região. Caetité é hoje a terceira maior reserva de minério de ferro do País – depois de Carajás e do Quadrilátero Ferrífero de Minas. Tem um potencial de recursos de 4 bilhões de toneladas. O grupo anglo-indiano que hoje toca essa reserva já deve ter chegado a um corpo de 600 milhões de toneladas, que é similar à maior reserva de ferro da Vale, que é Brucutu, em Minas Gerais. Com Caetité, passei da condição de bem de vida para muito bem de vida...

Qual é a desvantagem de ser rico no Brasil?

A situação de desigualdade social cria problemas de segurança, evidentemente. Mas nesse particular o governo Lula tem méritos. Dizem que Bolsa Família é esmola, é peixe e não vara de pescar. Mas um dia, no interior de Goiás, tive uma experiência marcante: um rapaz pediu dinheiro para comprar comida para a família e, quando dei, ficou com lágrimas nos olhos: “O sr. foi minha salvação.
Se não conseguisse comida, eu estava disposto a assaltar o armazém. O pessoal lá em casa está com fome”. Veja que um prato de comida pode mudar a vida de um sujeito. É isso que o empresariado precisa entender. Um programa como esse, num país ainda desigual como o Brasil, pode evitar crimes.

Como descobriu esse gosto pelo requinte?

Esse gosto pela beleza e pela riqueza eu trago em mim desde garoto, quando decidi que não teria uma vida de limitações. E sabia que nada cairia do céu. Desde cedo comecei a ler muito, sobretudo biografias de empreendedores, como os Rockfellers e a família Matarazzo. Mais cedo ou mais tarde, teria meu upgrade.
De manhã bem cedinho, já colocava no papel um organograma das empresas que eu um dia viria a ter, recortava fotos de carros bonitos. Com meu primeiro salário de geólogo, hospedei-me no Copacabana Palace. Desde que me conheço por gente, prefiria ficar no apartamento mais barato do hotel mais caro do que no quarto mais caro do hotel mais barato.

Poder comprar tudo o que você quer não faz a vida ficar sem graça?

Até que não. Comprar o que quiser é muito bom. Uma das sensações mais desagradáveis é querer e não poder ter. Mas dinheiro para mim é um meio para conseguir as coisas – não um fim em si mesmo. Meu fim é a busca da felicidade.

Quais são as coisas que o dinheiro pode comprar que mais lhe trazem prazer hoje?

Carros antigos maravilhosos. Eu chamo essa minha coleção de automóveis dos anos 50 de “os carros que eu não pude comprar”. Eu estudava como bolsista num colégio de filhos de fazendeiros de cacau. Chegavam aqueles Cadillacs e os “Belé”, como dizíamos, para pegar os alunos. E eu andando de ônibus. Meu hobby era ir às lojas de carros importados, fazer perguntas, admirar, fotografar, pegar folders. Nos lançamentos dos novos modelos, eu ia lá com meu blazer único e jeitão de rico. O sujeito chegava perto para especular: “Tem um?”. E eu: “Estou comprando...” O curioso é que, 20 anos depois, voltei a uma dessas lojas para escolher um carro e o vendedor me reconheceu: “Agora o sr. vai comprar?” Também adoro casas bonitas. Passo na frente de uma, vou saber quem é o dono e faço proposta. Procuro viver em alto estilo. E a Renilce sintoniza com isso.

Isso Seria difícil se você decidisse viver como um monge budista, só com a roupa do corpo...

(Risos do casal). Mas eu sou um monge. Monge beneditino, leigo. Durante anos, à medida que ia desenvolvendo minha vida espiritual, frequentei o mosteiro beneditino da Bahia, o primeiro da Ordem fora da Europa, e me tornei o Irmão Francisco. Isso me dá direito de, se resolver abdicar da vida material e doar tudo, ter as portas abertas de qualquer mosteiro beneditino em qualquer lugar do mundo. Posso até usar o hábito.

Você perdeu muito na crise?

Quase nada. Minha idade não me permite mais brincar com dinheiro. Nossas empresas não estão registradas na Bolsa e não tiveram desvalorização porque nossos ativos são commodities minerais, que são produtos não-perecíveis e a humanidade vai precisar deles enquanto existirmos.

O Eike Batista, seu ex-sócio, está na lista dos bilionários brasileiros da Forbes.E vocÊ?

O Eike de fato foi meu sócio. É uma pessoa inteligentíssima, um visionário que pensa na frente. Levei a ele seu primeiro projeto de minério de ferro. Mas fomos combalidos pelo governo da Bahia, na época comandado pelo sr. Paulo Souto, cuja equipe de 60 geólogos tinha passado batido pela jazida de Caetité. Ele procurou desmerecer a descoberta, desacreditando seu próprio estado. Foi preciso que o Ministério das Minas e Energia mandasse uma equipe à Bahia para confirmar meu achado. Ele me prejudicou bastante e prejudicou a Bahia. Se ele não tivesse criado problemas, esse empreendimento estaria gerando hoje 40 mil empregos. Felizmente, o governador Jaques Wagner providenciou um protocolo de intenções com a Bahia Mineradora Ltda., já controlada pelo grupo anglo-indiano, dando total apoio.

Mas voltando à Forbes: afinal, você tem cacife para entrar na lista dos bilionários?

A Forbes me procurou querendo informações sobre bens e saldos bancários. Não concordei. Quem sabe no futuro... Essas coisas mudam. Há uns cinco anos, o patrimônio de Eike talvez não passasse de 10 milhões de dólares. A alavancada veio com a abertura de capitais.
Muita gente entrou na Forbes com base nessas aberturas. Isso é papel, não é dinheiro concreto. Não é meu caso. Se eu considerar apenas o valor das empresas de que participo – como a GME 4, avaliada hoje em 2,4 bilhões de dólares por seus ativos minerais, e a Sul-Americana de Metais, em parceria com a Votorantim, com 1 bilhão em potencial de ativos – eu já teria aí quase 900 milhões de dólares, mais o patrimônio pessoal. Eu diria que estaria hoje na lista dos homens mais capitalizados deste país. Mas minha riqueza mesmo é o trabalho e a filantropia.

Por que o preto e a fixação pelo número 4?

A cor preta é a cor que envolve todas as outras cores. Não é a cor do luto, mas a totalidade das cores. E é uma maneira de ser clássico e discreto. Eu sou clássico – dos carros às músicas. É minha maneira de me comunicar com o sagrado.
O número 4 representa minha ligação com os animais – 4 de outubro é dia de São Francisco de Assis. Quatro são as estações do ano e os pontos cardeais. Muitas coisas boas de minha vida ocorreram num dia 4. Eu só fecho contratos no dia 4.

Esse trabalho admirável com animais abandonados mudou sua vida de alguma forma?

Mudou muito. Nós, homens, temos o livre arbítrio de decidir o que queremos ser na vida. Já os animais não têm esse arbítrio. Por não tê-lo, eles são ligados diretamente ao divino. Quando você alivia seu sofrimento, o Grande Pai diz: esse é o cara. Nossa vida tornou-se um mar de prosperidade depois que começamos esse trabalho.
Segundo estudos de Harvard, o cachorro é o ser vivo cujo amor pelos humanos mais se aproxima do amor de Cristo.

E se lhe perguntam por que você não ajuda crianças?

Eu digo: também ajudo. E você? Ajuda quem? No início, quando ainda não existia o abrigo, acomodei 54 gatos num apartamento nosso. Quando decidi vender, para comprar o terreno do abrigo, muita gente foi ver e tomou um susto com os gatos. Um idiota viu a gataiada e falou: “O sr. não sabe que gato dá azar?”. Eu disse para ele: “Pois a mim só dá sorte. Estou rico...”. Infelizmente, 90% da humanidade só vive para copular, comer e existir. Por praticarmos os ensinamentos budistas, nos tornamos sensíveis às dores do mundo. Meu próximo projeto será a construção de um hospital para crianças com câncer

Morando em São Paulo, como é a relação com a Bahia?

São Paulo é minha segunda mãe. Mas tenho um amor incomensurável pelas belezas naturais e pelo clima da Bahia e cultuo fortemente seu misticismo. Mas na entrevista que dei para o New York Times, há pouco, eu disse que nosso Carnaval tinha se transformado numa bacanal e fui muito criticado. Mas como pode uma pessoa passar oito dias pulando e bebendo sem parar, com o estado paralisado? Esse é um lado da Bahia que não me atrai. Você nunca vai me ver quebrando caranguejo numa barraca de praia...

Você se vê vivendo até os 80?

Sim, mas eu vivo pedindo à Renilce e aos meus filhos que me liberem logo para eu passear com meus carros, porque só tenho mais 10 anos de vida útil. Depois dos 70, não vou mais conseguir entrar na Ferrari...

A caminho do condomínio de luxo, no interior de São Paulo, onde dão retoques numa mansão em estilo toscano, João Carlos e Renilce Cavalcanti têm o olhar fixo para as margens da estrada – onde sempre pode haver um animal em perigo, ferido ou faminto. Não é raro que parem o carrão blindado para uma operação de socorro ou resgate. Recentemente, encontraram uma cadela recém-parida e seus filhotes. Não mediram custos: por telefone, mandaram preparar o jatinho para levar mãe e filhos à Bahia – onde teriam casa, comida e chão lavado por toda a vida. De tudo o que João Carlos Cavalcanti já fez na vida, ao lado de sua Renilce, a quem conheceu quando ela tinha 12 anos, o Santuário do Melhor Amigo é, sem dúvida, sua maior obra. Renilce – que poderia ser apenas uma das mais badaladas socialites de Salvador – começou essa missão adotando um cachorro de rua à distância, trazendo-lhe comida e água quase todos os dias. Quando a situação do casal melhorou, compraram um pequeno sítio para abrigar os amigos de quatro patas. Hoje, 12 anos mais tarde, o Santuário do Melhor Amigo abriga cerca de 1200 cachorros e 250 gatos – muitos deles resgatados de maus tratos em favelas. Não é um depósito para animais, mas um abrigo com toda a mordomia. São quase 40 funcionários, incluindo oito veterinários. O setor de reabilitação para cães paraplégicos é modelar – e comovente. Nenhum dos animais está lá para doação. “Nunca teríamos a certeza de que o animal seria mais bem tratado fora do que aqui”. JC e Renilce investem pelo menos 150 mil reais por mês no Santuário. Quem se habilita a dividir com eles esse gesto de amor?

 

 

Negócios sólidos:
O grosso dos negócios de João Carlos Cavalcanti
se concentra no setor de mineração, através das
seguintes participações:
•Sócio da Sul Americana de Metais S.A
(com a Votorantim Novos Negócios)
•Sócio da Base Metals Exploration do Brasil S.A
(com a Votorantim Novos Negócios)
•Sócio da GME4 (com o Banco Opportunity)
•Sócio da Mineração Brasileira de Ferro

 As informações são do Go’ Where Bahia.

 

 

 

 

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(Fernanda Dourado)

 

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